sábado, 4 de outubro de 2008

Leitura para quem tem estômago

Bom meus caros, apesar de não ser minha competencia original [faculdade de direito influenciando], hoje darei início à seção de Literatura do ESAG, seção esta que nas postagens subsequentes ficará por conta de nossa mascote [vou apanhar por conta desse comentário] e única representante feminina do blog: Xita.

Nem gregos, nem troianos.

Na minha participação especial aqui na seção das letras eu decidi falar de um cara que não agradou muito quando vivo [sina de todo futuro gênio], o poeta paraibano Augusto dos Anjos.
Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Recife, Augusto preferiu passar a vida dividindo seu tempo entre lecionar em escolas e escrever suas poesias -incrivelmente originais diga-se de passagem.

Precosse em vários aspéctos, Augusto foi ao encontro dos vermes, a quem prestou seguidas homenagens em seus poemas, cedo, aos 30 anos.
Situado num ambiente de muita rigidez na literatura poética, Augusto foi por muitas vezes chamado de Parnasiano. Porém afirmar que esse grande mestre se restringia apenas à busca da forma perfeita é de um levianismo gigantesco.

O poeta fez poesia com o que se achava impossível, a ciência. A mais pura, rígida, fria e desalmada ciência. Muito influenciado por nomes como Haeckel, Spencer, Schopenhauer etc., Augusto foi muito criticado pelos parnasianos e simbolistas da época, e acusado de "não fazer poesia". Mesmo mais de 15 anos após sua morte, Carlos Drummond de Andrade admitiu que quando leu Augusto dos Anjos pela primeira vez "foi como levar um soco na boca do estômago".
O pessimismo e o tom sombrio, herdado principalmente de Schopenhauer, foi outro ponto fundamental de sua obra.

Aconselho portanto, a quem possui estômago e não tem medo de "levar um soco" na boca do referido órgão, a leitura do livro Eu e outras poesias, única publicação do autor. Garanto que será uma experiência inédita.

Segue uma pequena prévia.

O último credo

Como ama o homem adúltero o adultério
E o ébrio a garrafa tóxica de rum,
Amo o coveiro - este ladrão comum
Que arrasta a gente para o cemitério!

É o transcendentalíssimo mistério!
É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,
É a morte, é esse danado número Um
Que matou Cristo e que matou Tibério!

Creio, como o filósofo mais crente,
Na generalidade decrescente
Com que a substância cósmica evolui...

Creio, perante a evolução imensa,
Que o homem universal de amanha vença
O homem particular eu que ontem fui!

O morcego

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

Deliciem-se

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